domingo, 23 de maio de 2010

Culpa. (Parte II da Necropsia).

Convivo com a culpa desde que nasci, culpa de tudo: do que fiz, do que não fiz, do que poderia ter feito.
Duas culpas se sobressaem na minha memória: como agi durante os últimos tempos de vida do pai e da mãe.
A mãe faleceu de uma enfermidade que durou uns poucos anos, eu não tive que cuidar dela, ficou a cargo do hospital, visitava todos os dias, cuidava da papelada, autorizava exames, cirurgias, ficava ao lado dela, ainda assim sinto-me culpado de não poder ter lhe dito o quanto eu a amava, culpado pelo que não fiz, pelo que poderia ter feito, apesar de ter feito tudo que era possível fazer.
O pai passou seus últimos tempos em casa, faleceu em uma clínica, fiz o que pude, não tentei fazer o que não pude e é disso que me sinto culpado.
Em momentos de lúcidez sei que fiz e dei o meu melhor para eles enquanto vivos. Não resolve: culpado.
A culpa me corrói por dentro, é implacável, sádica e incansável. Piora quando faço algo necessário para mim e que causa dor ou desconforto ao outro. Me tortura se despejo raiva no outro, mesmo que seja uma raiva educada e justa. Surge sempre para boicotar meu prazer e me arremessar em um mundo de trevas, sinistro, de autoflagelação. É tão cruel que me faz sentir culpado por falar e escrever sobre a Culpa. Não é ludibriável, ela consegue prever meus próximos passos e se antecipa a eles.
Não sei de onde vem, é antiga e complexa no meu Eu, mais que a ideologia judaico cristã. Eu a sinto e eu sofro com isso.
Não há jurado ou juiz que me absolva, a sentença é sempre a mesma no meu julgamento: interno culpado.

Lágrimas de Gozo.

Escrever é simples, lápis e papel. Escrever sobre sentimento requer sofisticação. Sobre um sentimento intangível é um desatino. Desate o nó, comigo.
Desde bem pequeno que a mulher e suas circunstâncias me mobiliza, transporta para outro mundo, paraliza. Faz de mim súdito de uma Rainha imaginária, ambos presos em um castelo fantástico.
Ele surge sorrateiro e insidioso provocado por uma bela mulher, por um gesto seu, por suas palavras, pela sua roupa, pela falta dela.
A primeira professora, o primeiro olhar, o primeiro nu, o primeiro beijo, o primeiro gozo. Pode nascer deles, pode ser com qualquer uma, qualquer hora, sem hora. Pode ser com a última.
Há um poder na mulher que me fascina, fragiliza e faz surgir este sentimento difícil de definir e medir. Não é possível prever e nem evitar o seu surgimento. Não consigo descrever o que é, de onde vem.
É claro, brando, intrometido. Invade meu pensamento e me faz refém.
Situa-se na fronteira indeterminada e volátil do que é sexual e do que é afetivo, une os úmidos gozo e choro, os indecifráveis pulsão e emoção, território tão no meu íntimo que nem mesmo eu tenho acesso. Domínio privativo da Alma e seu próprio código. Sentimento que provoca um profundo e gratificante prazer. Nirvana etéreo que eu tento tocar. Quanto mais tento, mais me escapa às mãos.
Surge como um maremoto e se vai como um nevoeiro que, ao se deslocar tocado pela leve brisa, dissipa lentamente deixando a folha molhada de saudade.
E eu à mercê do tempo, do sentimento e delas.

Literatura.



Estou lendo. Me sinto pequeno.
O roteiro dele é dirigido por Glauber, por Truffaut, por Kurosawa. Dogma 95.
Eu tenho na mão apenas uma velha câmera super oito e poucos cabelos na cabeça.
Pedra de Roseta. Biblia. Decifra-me ou te leio.
Deusa, mãe, mulher. Delicada como o ar.
Há um risco de esmalte vermelho na capa.
A mesa do computador ficou mais inteligente e sensível sustentando ele.
Eu uso o código binário para ler o subjetivo.
Eu preciso entender.
Eu preciso aprender.
Eu preciso ler.
Eu preciso reler.
Eu Li.
Reli.
Eu, Lili.



domingo, 9 de maio de 2010

Drops Amarelo.



Amanheceu um dia bonito e com uma claridade acima do normal, dia ofuscante. As autoridades científicas logo viraram para o Sol seus instrumentos e notaram que na borda dele haviam pétalas de girassol circundando toda a estrela, e que isso causava o brilho excessivo no céu.
Durante todo o dia o planeta discutiu o assunto, procurou as causas e projetou como seria a vida após a mudança. Nenhuma conclusão, não se sabia de onde surgiram as pétalas, até que uma menininha de cabelos crespos respondeu à questão que ninguém havia conseguido. Ela disse:
- "O Sol desabrochou".

Auto Estima. (Parte I da Necropsia).

Quando iniciei o blog ele era mais intimista, passado um tempo se modificou e outros temas tomaram conta das páginas, ao sabor dos ventos que movem a vida e o destino. Eu queria retomar, neste post, à característica intimista do blog.
Tenho auto estima baixa, me vejo feio, desajeitado, desproporcional, sou tímido, inseguro e medroso. Isso me atrapalha, me inibe, faz com que eu perca oportunidades na vida, sejam profissionais ou afetivas e machuque as pessoas com as quais me relaciono. Quando revelo às pessoas que sou assim elas se surpreendem, principalmente quanto à minha depreciação física. Elas acreditam que o simples fato delas dizerem que eu não sou isso ou aquilo, fisicamente, é o suficiente para eu passar a me ver diferente e me valorizar adequadamente. Não funciona, fiz terapia uns anos, melhorei, me vi melhor, mas ainda me desvalorizo para mim mesmo e para os demais, e tenho um hábito inadequado que é desqualificar o elogio do outro, me dei conta que ainda hoje rejeito os elogios como se eu não fosse merecedor deles, mesmo sabendo que o elogio é sincero e verdadeiro. Me policio, tento minimizar a interferência que a minha baixa auto estima causa nos meus relacionamentos pessoais e na minha vida, mas como um cachorro correndo atrás do rabo, fico gastando energia e perdendo tempo com essa rotina cansativa e não dá bom resultado. Notei que algumas situações me fazem melhorar, quando me apaixono, quando conheço coisas novas, quando mudo de ares.
Quando conheço alguém especial isso me impulsiona para a frente e para cima, alimentando meu frágil ego e me elevando a um patamar que sou merecedor, mais digno e adequado à minha existência.
Não posso viver me alimentando de novidades, paixões e mudança de vida para sobreviver à uma baixa auto estima, o correto seria uma terapia, mas isso não está nos meus planos, por enquanto, tento resolver o problema com o que tenho, com quem eu amo e quem está à minha volta, e estou cercado de pessoas que me fazem muito bem. Menos mal.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Drops Geométrico.


Dada uma reta A-B, temos entre estes dois pontos infinitos pontos por onde escorre e permeia os sentimentos difusos de felicidade, surpresa, encantamento e admiração. Lúdicos, os sentimentos fugidios alternam e misturam-se entre os infinitos pontos. Não exigem resposta, contentam-se com a sua simples existência. Alimentam-se de grãos de pólen trazidos pelo vento movido pelas monções do afeto e regem o ritmo do coração com uma batura invisível, mas perfeitamente perceptível.
Por fim, seus movimentos lentos e irrefreáveis vergam a reta, aproximam A de B, e o que era reta se transforma em uma simples e perfeita esfera.

sábado, 24 de abril de 2010

Estranho.

Na infância e adolescência eu convivia com um sentimento que me assolava de vez em quando de que eu era diferente e que toda a população do planeta estava sabendo de algo e me escondia. Eu experimentava com frequência este sentimento de exclusão. Era difuso, não havia um motivo por detrás, eu não sabia sobre o que me escondiam, porém eu me sentia excluído e inferiorizado em relação aos demais, me incomodava com essa situação, ainda bem que era transitória. Esta semana me senti assim, de novo, após anos.
Eu não sei o quê me fez sentir assim, porém era um sentimento ligeiramente diferente do da infância e adolescência, era como se eu, agora, soubesse todas as verdades do mundo e, mesmo assim, todos as pessoas as escondiam de mim.
Eu sou tão estranho.

domingo, 11 de abril de 2010

Chatleta.

Eu me relaciono com facilidade com diversos tipos de pessoas, mas como muitos, tenho dificuldade com os chatos, sejam eles de carteirinha ou os que são como esporte.
Encontro muito chatos de oportunidade, são pessoas legais na sua essência que, aparentemente, não tem do que reclamar, sua vida é boa, não falta dinheiro, tem saúde, amigos, família legal, relações familiares tranquilas, todos com saúde, casa própria, um carrinho na garagem, mesmo assim passam o dia reclamando e enchendo os tubos meus e de quem estiver à volta. Tudo é motivo de reclamação: o clima, o engarrafamento, o filme da TV, o time que ganha, mas não convence, a comida que nunca está ao seu gosto. Parece que nada serve e nada satisfaz ao infeliz que ainda tenta, com prazer sádico, estragar o dia de quem estiver à volta.
Fuja desde esportista fajuto. A vida tem que ser vivida e aproveitada, ela é difícil por si só, ainda mais com seres assim à volta.
Não se sinta chato em mandar o chato se exercitar em outra praça esportiva, ele vai reclamar, mesmo.

domingo, 14 de março de 2010

Clientes.

Uma lista politicamente incorreta com alguns tipos de seres que habitam meu local de trabalho:

Cliente criança abandonada:
grudento, fala choramingando e miando 325 vezes o nome do balconista. Inicia as frases com: "me ajuda", "preciso muito", etc
Cliente "támais": faz mil perguntas, todas iniciando com "tá mais...". É um tal de "tá mais isso...", "tá mais aquilo...". Se tirar o "tá mais" do início da frase ele não sabe perguntar.
Cliente aposentado da PanVel: antes de solicitar o produto pergunta se tem desconto.
Cliente cachorro perdido: quando perguntado o que deseja fica olhando para toda a loja, para cada centímetro dela vasculhando para ver se localiza o que ele quer e, assim, não precisar explicar ao balconista.
Cliente dono de operadora de celular: vai à loja sem saber o que tem que comprar e a cada informação solicitada pelo balconista liga para a pessoa interessada pelo celular para perguntar a ela o que fazer.
Cliente marido traído: não acredita em nenhuma informação passada pelo balconista, duvida de tudo, até de que ele mesmo esteja vivo.
Cliente investigador policial: chega à loja perguntando: "Cadê o fulano?", quando informado que o fulano não está quer saber quando ele vem, se está de férias, que roupa está usando e se sabemos onde está o transístor que ele pediu para que o "fulano" separasse no inverno de 1933. Ou foi no Outono daquele ano?
Cliente sabe com quem tá falando?: pergunta ao balconista se conhecemos o Joãozinho Dos Anzóis, famoso consertador de porra nenhuma que é vizinho dele na vila dos infernos, e ainda tem a cara-de-pau de ficar puto quando dizemos que não conhecemos o Joãozinho e nunca o vimos mais bonito.
Cliente engenheiro da NASA: seu único conserto na vida foi do radinho à pilha da vizinha chata e que tinha apenas um fio solto. Vai à loja achando que sabe consertar qualquer defeito da Endevour. Saia de perto dele!
Cliente carente: Vai à loja e, antes de pedir o que precisa, relata todos os seus problemas existenciais na esperança que o balconista o ajude a resolvê-los.
Cliente político profissional: começa a falar antes de chegar à porta da loja e não para nunca, não adianta perguntar o que ele deseja ou tentar interromper, ele só para de falar quando dormir. Se dormir.
Cliente doidão: comprou uma TV nova de "LSD".
Cliente BBB: acha que é celebridade e estranha quando não estendemos um tapete vermelho para ele quando entra na loja.
Cliente de outro planeta: quando informamos a ele que precisa colocar uma antena na TV ele olha para nós com uma cara de espanto e pergunta: "antena?" como se falássemos de algo que ele nunca viu e que só existe em livros de ficção científica.
Cliente pião: nunca pergunta de cara o que quer saber, fica dando volta e mais volta com perguntas imbecis tentando adivinhar pelas nossas respostas o que ele realmente quer saber.
Cliente ligeirinho: entra correndo na loja, precisa ser informado que não há saída nos fundos da loja e que deve verificar os freios semanalmente.
Cliente ingênuo: um amigo dele disse que vendíamos urânio enriquecido para fazer bomba atômica e fica desapontado quando dissemos que não trabalhamos com o produto.
Cliente Alice no País das Maravilhas: vê na TV propaganda de uma máquina que permite viajar no tempo e vai à loja para comprá-la. Quase vai às lágrimas quando dizemos que tal produto não existe e ele foi enganado.
Cliente GPS: faz o pedido ao balconista e passa a seguí-lo pela loja inteira. Se o balconista for ao banheiro ele vai.

Palavras Nuas.

Íntimo.
Aquele lugar onde colocamos o que há de mais nosso, que deve ser guardado. É nobre, único, não vendemos, mas podemos dar a preço de banana. O íntimo que valorizamos e escolhemos muito bem para quem revelar, às vezes mostramos pouco, às vezes muito, quando não disfarçamos.
Mostrei meu íntimo poucas vezes, por raras vezes me sentir à vontade com a pessoa, e não basta conviver muito, amar, desejar, só revelamos o que é íntimo para quem merece, quem conquista o Santo Graal e obtém acesso ao que de nós é mais sagrado.
Íntimo é algo intocável, etéreo, que o dinheiro não compra, mas vale muito, mais do que ele possa comprar, e se o dinheiro comprar não é intimidade, é comércio.
Há duas regiões demarcadas como íntimas: algumas de minhas ideias, de meus sentimentos, de minhas convicções, e algumas áreas do meu corpo. Nas vezes que mostrei uma, outra, ou as duas regiões íntimas, vários sentimentos sucederam, sempre relacionados com o que o outro fazia com o que de mais guardado eu tenho.
As experiências ao longo de minha vida me fizeram ser mais cauteloso e escolher com critérios mais exigentes a quem mostrar e como mostrar meu tesouro, auto valorização que aumentou com o tempo e com a diminuição da necessidade de eu ser outra pessoa, aceitando melhor ser eu mesmo. Aumentou a responsabilidade na hora de me mostrar e a exigência do que o outro fará com o que é meu.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Novo Layout.

O Blogger está disponibilizando novas opções de layout para os blogs que hospeda. Estou experimentando mudar o layout, o antigo estava cansativo e ultrapassado, este me pareceu leve, simpático e, por enquanto, deve ficar como provisório-permanente.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Tatuagem (Parte I).

Em Março de 2009 fiz uma operação de hérnia, deu tudo certo, me recuperei bem, apesar de um pequeno transtorno por causa de uma reação à anestesia que me deixou de cama por uns dois dias.
Eu imaginei que a cicatriz da cirurgia desapareceria quase que por completo após um ano, ficaria imperceptível. Não ficou. Está visível e contrasta com a pele branca em volta, é uma área não pública do corpo.
Não quero ficar olhando para essa cicatriz para sempre, se é para ficar com uma marca que seja um desenho, uma tatuagem. Eu nunca tive vontade de fazer uma, mas me deu, agora, para cobrir a cicatriz.
Quero um desenho que seja feito com bordas bem definidas, não gosto de tatuagens borradas e não quero um desenho monocromático, quero que tenha cores e que sejam bem vivas.
Não tenho idéia de qual será o motivo ou desenho tatuado, por incrível que pareça isso é secundário, quero é esconder a cicatriz, vou aguardar o fim da temporada de piscina para tatuar e não me preocupar com o cloro ou com o sol, apesar de que não planejo que a tatuagem fique visível em uma área pública do corpo, talvez ela tenha que ultrapassar para cima a linha da cintura por questões técnicas.
Volto para dizer como está essa novela.

A Laranja de Amostra.



Laranja era uma bela fruta que ocupava um lugar de destaque no pé de laranja: bem no alto, visível, e desejável. Muitos passarinhos a cortejavam, algum mais afoito e cara-de-pau se aproveitava de Laranja e dava-lhe uma bicadas para sugar seu suco. Laranja gostava do enrosco, era desejada, sentia prazer, trocava afeto com os passarinhos.
Um dia um passarinho de quem ela gostava lhe decepcionou, Laranja ficou triste, não queria mais ser alvo dos passarinhos e seus bicos, escondeu-se entre as folhas do pé de laranja, acumulou suco demais, ficou pesada, não estava mais no alto do pé, ficou lá pelo meio da árvore, camuflada, triste, isolada, perdida em seus sentimentos. Sentiu raiva dos passarinhos, como se todos eles fossem iguais, retraída em seu próprio mundo perdeu viçosidade, seu suco azedou, os passarinhos não a queriam mais, sua casca enrugou, ela apodreceu e caiu do pé, foi uma longa queda, e só neste momento, já no chão, que ela se deu conta de quão alta estava, quão importante e bela era e de como perdeu tudo.

Ilustração: http://www.kidmodern.com/index.php

Star Trek (2009).

Sou fã de Jornada Nas Estrelas, a série que foi filmada para a TV na década de 60, O roteiros eram excelentes, os efeitos ruins, mas bons para a época, o orçamento da série era baixo, os cenários e figurinos franciscanos.
Era uma ótima série porque era simples, o idealizador dela, Gene Roddenberry, encarregou bons roteiristas para escreverem os episódios, havia ação bem misturada com conteúdo e, salvo um ou outro episódio bobinho, a maioria das histórias eram bem fundamentadas e davam margem à discussões filosóficas e existenciais.
Nunca gostei das séries de TV e filmes para o cinema baseados em Jornada Nas Estrelas, os efeitos eram ótimos, mas faltava conteúdo, muito violentos e, sobretudo, não tinham personagens carismáticos como o Cap. Kirk e o Sr. Spock.
Assisti recentemente ao filme do cinema lançado em 2009. O diretor dele J.J. Abrams cumpriu a promessa anterior às filmagens de fazer um filme para os amantes da série clássica. No filme se vê a origem do três personagens: Kirk, Spock e McCoy, da amizade entre eles e de onde vieram outros personagens da tripulação da Enterprise, como a Ten. Uhura e o Sr. Scott, justamente são esses fatos que fazem o filme diferente e emocionante, é bacana saber como eles se conheceram e porque a amizade entre eles se desenvolveu.
O filme enquanto filme de ficção científica é fraco, óbvio, previsível, vale para os saudosos fãs como eu que se deliciaram em poder reviver os episódios da série clássica em pleno Séc. XXI.
Vida longa e próspera.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Bom Ano Passado.

O ano de 2009 foi um bom ano para mim, mantive meu emprego, as pessoas que amo ao meu lado, operei a hérnia que me assombrava há anos, coloquei as lentes de contato e me livrei dos óculos.
Não tenho o que reclamar do ano que passou, se poderia ser melhor deixo que esse melhor venha em 2010, não quero ser exigente comigo mesmo e com a vida. Tá bom assim.

Educação.

Educar cansa.
Meus dois filhos já estão crescidos, não preciso mais mandar fazer isso, aquilo, trocar de roupa, escovar os dentes ou explicar as piadas. É bom, a fase mais trabalhosa passou, mas ainda sou pai, estou presente e preciso exercer esta função, apesar de cada dia ser menos necessário. Só que já não tenho mais a mesma disposição de antes, a mesma paciência para educar. Dei a eles a base do que considero educação, não tem muito mais o que fazer se o pepino nasceu torto, minha esperança é que tenha nascido reto e confio nisto.
Educar é explicar, e repetir e repetir, até que "entre" na cabeça do filho, ou não, e é dessa repetição que ando cansado. Está chagada a hora de deixar que as ideias que transmiti a eles as guiem para algum lugar e eles arquem com as consequências dos seus atos, vou ficar por perto assistindo e tomara que não precise intervir.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Política No Futebol.

Quando escrevo o jogo ainda nem começou, mas já está jogado. O Grêmio vai perder para o Flamengo logo mais à tarde.
A combinação de resultados da rodada de hoje do Campeonato Brasileiro pode fazer com que um empate do Grêmio logo mais com o Flamengo torne seu rival de bairro, o Internacional, Campeão Brasileiro de 2009. Nenhum torcedor gremista quer isso, nenhum dos atuais dirigentes que ficar conhecido como "Fulano, aquele que deu o campeonato de 2009 ao Inter". O título é muito importante, não é um campeonatinho qualquer e, mesmo que fosse, isso já seria motivo suficiente para impedir o Inter de conquistá-lo.
O Grêmio fará um jogo político, deixou em Porto Alegre seus principais jogadores, cada um com seu bom motivo para não jogar: lesão, cansaço, desligamento do clube etc.
Ninguém da direção do Grêmio ou de sua comissão técnica dirá aos jogadores: não vençam! O time será escalado e armado para não vencer, sequer empatar. Entrará em campo com uma combinação implícita de não favorecer seu rival. Jogará a não ganhar. A
má campanha fora de casa justificará o resultado ruim.
A rivalidade supera a dignidade, espírito esportivo e qualquer coisa mais.
Flamengo é o Campeão Brasileiro de 2009.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Verdadeiro Espelho.




"Money doesn't change men, it merely unmasks them. If a man is naturally selfish or arrogant or greedy, the money brings that out, that's all." Henry Ford.


E fez-se o milagre da multiplicação do dinheiro, de uma hora para outra, do dia para a noite, toda a população mundial se tornou milionária e com acesso permanente à fortuna.
Uns pegaram toda a grana e a esconderam debaixo do maior colchão que encontraram, ou resolveram encomendar à fábrica um colchão gigantesco para servir de esconderijo ao dinheiro. Outros correram gastar, compraram o que viam pela frente sem perguntar o preço.
Teve aquele que realizou sonhos antigos que só cultivava como uma forma de manter-se esperançoso, vivo, oníricamente.
Uma boa parte dos milionários logo cansou da gastação e passou a fazer coisas que não eram comuns. Mais, não eram comuns, nem normais. Maluquices variadas, doideras sem explicação, que não prejudicavam ninguém, senão a si mesmos e, logo, estavam com suas vidas ameaçadas pelos excessos e pela falta de noção de perigo.
Muitos morreram por causa do seu desejo, tanto desejaram que um dia conseguiram, e morreram. Dos excessos.
Manicômios estavam lotados, clínicas para loucos também não tinham mais vagas.
Consumiram tudo o que havia à volta, e consumiram a si mesmos.
Voltaram a vagar pela Terra, como hordas bárbaras, com muito dinheiro no bolso, mas pobres e famintos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Previsão de sol e chuva.

Cresci ouvindo a ironia de que se a Meteorologia previa chuva, faria sol, se prevesse sol, choveria. Era uma época bem diferente da atual do ponto de vista tecnológico. Não havia imagens de satélite que esquadrinhavam a atmosfera como hoje, dando muitas informações que até então não se obtinha. Também não havia sido inventado os supercomputadores capazes de rodar programas complexos, cheio de dados e que hoje permitem rodar modelos matemáticos que simulam o comportamento da atmosfera nos dias e semanas seguintes.
É injusto ironizar a Meteorologia, com mais recursos ela dificilmente erra e quando erra não é um erro que se perceba facilmente, não prevê sol e dá temporal, não prevê temporal e faz sol, embora erre, sim, pois é uma previsão, porém a cada dia essa previsão é mais precisa.
O que falta às pessoas é memória para relembrar quantas vezes a previsão acertou e as pouquíssimas que errou.

Meteorologista é como árbitro de futebol, se ele acerta ninguém quer saber quem é e em que instituição trabalha, se erra querem saber seu nome e não esquecem mais dele, esquecem é de parabenizá-lo pelos seus acertos diários.

Para-brisa e Retrovisor.

A nossa vida pode ser comparada a um automóvel cujo motorista somos nós. Dirigimos por onde há caminho, se não há caminho, estrada, rua, não podemos ir por ali. Obedecemos às regras de trânsito, os sinais e convenções, como na vida.
Cheguei a uma etapa cronológica onde, motorista que sou da minha vida, olho para frente pelo para-brisa quase tanto quanto olho para trás pelo espelho retrovisor. A minha vida está equilibrada entre viver o aqui e agora, planejando o que há por vir e relembrar o que passou, revivendo a minha história. Faço isso seja porque a minha história foi bacana, seja porque o presente e o futuro que prevejo não seja tão bom quanto foi o passado. É o passado que me dá sustentação para resistir aos momentos não tão bons do presente, nele me alimento quando preciso de referência para enfrentar o novo e que me assuta. Este é um tema recorrente nesse blog, pois faz parte do meu ser e da minha vivência.
Não tenho ideia até quando este equilíbrio persistirá, e também não sei para que lado penderá se desequilibrar. Está bom assim, não quero viver racionalmente no presente e planejar friamente o futuro, tão pouco quero viver de passado, mas se for preciso engato a ré do meu carro se o futuro me intimidar e não der perspectiva.